Esses contos, se são sobre o cotidiano, não são nada banais. O primeiro, que dá nome à obra, relata a história de Johanna Parry, uma mulher simples e sem ambição que, por um engano, se coloca diante de um futuro com que nunca sonhou; em Ponte flutuante, Jinny recupera-se de grave enfermidade enquanto se deixa seduzir por um adolescente, em momento de inigualável poesia; Mobília de família resgata, aos olhos de uma escritora, a personalidade de uma tia que foi definitiva na sua infância; no belíssimo Conforto, Nina se despede do marido, na busca da compreensão profunda de seu ato de adeus; o encontro das memórias de duas personagens acerca de um verão, seus dramas posteriores e o fundo em comum que os une é tristemente o cenário deUrtigas; em Coluna e vigas, uma jovem mãe aprende a lidar com expectativas alheias sobre si mesma, e a importância da negociação; O que é lembrado é um comovente e sarcástico exercício de memória.
Já Queenie é a construção do imaginário de uma heroína, ainda que tão cheia de defeitos, no encontro eterno de duas irmãs cúmplices; e, por fim, O urso atravessou a montanha, em que Alice narra com infinita delicadeza a descoberta amorosa na perda da memória, e a ternura incondicional de dois companheiros de vida. (O urso atravessou a montanhafoi adaptado para o cinema, no premiado longa-metragemLonge dela, de Sarah Polley.)
Verdadeiros clássicos modernos, as histórias de Munro vão além de um universo feminino, como quiseram alguns, e ultrapassam a chamada “arte de eternizar momentos banais”. Ela faz isso com destreza, é certo, mas o que há de mais fundamental em sua escrita é chamar a atenção para que os momentos decisivos ponteiam a vida a cada instante e que cada um deles contem tudo que passou. Por isso a memória tem um papel crucial: porque ela é construtora de individualidades e capaz de gerar transformações.







Nenhum comentário:
Postar um comentário